quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Bomba relógio


Música: Give me Love

Artista: Ed Sheeran

Nota da Autora: Argh

- x- 

- Isso não é normal

- O que não é normal?

- Nos sentirmos assim.

- Assim como?

- Exaustos o tempo todo.

Ela fechou os olhos e sentiu o peso do mundo nas suas costas, sentiu as ondas do mar batendo na nuca e a areia densa empurrar suas costas para baixo. Sentiu o corpo começar desintegrar aos poucos e o peito apertar. Um murro sendo pressionado contra a ponta de uma faca.

Tinha que abrir os olhos.

Precisava fazer isso mesmo não querendo.

O chumbo corria fluído por seus pés, as correntes já afinavam sua cintura e bamboleavam tilintando ao ritmo das passadas de perna. Carregava sua bolsa no ombro e sentia as costas doerem.

Quando foi a última vez que ela havia se sentido leve?

- Eu não me sinto cansado agora.

- Então você esta mentindo ou não tem nada com que se preocupar.

- E eu preciso de preocupação pra sentir esse peso?

- Depende. Você se ama?

- Amo.

- Você precisa pagar contas?

- Não.

- Você tem bastantes amigos?

- Sim.

É normal ver sangue na respiração?

É normal acordar em desespero, fitar o chão do quarto, segurar os cabelos e desejar pelo fim do mundo? Vestir suas roupas contendo a vontade de destruir o que estiver ao seu alcance? Atravessar as ruas e torcer para que um motorista desavisado ou imprudente faça aquela curva fechada bem quando seus pés tocam o asfalto?

É normal deitar na cama de noite e não conseguir dormir? Pensar que no final do dia você terá que "descansar" e fazer tudo de novo na manhã seguinte?

Nossa geração foi construída para ser bombas relógio.

Temos novas doenças, novas síndromes, novas fobias e novos distúrbios mentais.

Temos novas medicinas, novas tecnologias e novos aparatos para impedir nosso suicídio.

Temos mais fome, mais guerra, mais medo, mais pavor e mais índices de depressão.

Temos uma ditadura na mídia, temos homens ensinando que mulheres devem ser tratadas como vadias e mulheres sendo ensinadas que o único jeito de ser aceitada na sociedade é se deixar subnutrir.

Temos "Não seja estuprada" ao invés de "Não estupre"

Temos assassinos respondendo em liberdade e mendigos sendo presos por roubarem um pedaço de pão.

Temos pressão. Temos cobranças. Temos demandas. Temos punições e penitências.

Temos "Para de ser fraco, isso não é depressão, é frescura"

Temos "Eu devia ter visto os sinais de que ela se mataria. Como fui tão cega?"

Temos discriminação social, temos homossexuais apanhando nas ruas sem motivo aparente, temos mulheres sendo molestadas nos trens e metrôs.

Temos medo de falar.

Temos medo de assumir que somos fracos e que precisamos de ajuda.

Temos medo de ficar para trás e de não conseguir acompanhar.

Temos medo de pedir 5 minutos de pausa e alguém tomar nosso lugar.

Temos medo do Amor.

Temos medo das pessoas.

Temos medo de nos machucar.

Temos "Pense mais, seja mais rápido, seja mais forte, seja mais inteligente, mais bonito, mais bem vestido, mais humilde, mais rico, mais exuberante, mais eficiente, mais bem sucedido e mais humano"

Temos mulheres sendo verbalmente assediadas todos os dias nas ruas.

Temos medo da morte.

Sabemos que vamos morrer, mas não sabemos quando e nem como.

Temos estudantes invadindo universidades com armas e atirando em colegas. Temos vingança.

Temos "Uma faculdade só não garante emprego em lugar nenhum"

Temos que falar no mínimo 2 idiomas.

Temos que ter inúmeros cursos.

Temos que ter tempo para tudo.

E tempo de tudo?

Podemos ter isso?

Não.

Não podemos.

E então, ela abriu os olhos.

- Pare de mentir para mim.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Piche




Música: Teen Idle
Banda/Artista: Marina & The Diamonds
Nota da Autora: Desculpem-me, muita coisa esta acontecendo e conseguir tempo pra escrever ta complicado.
-X-
Fundo branco. Paredes brancas. Piso branco. Temperatura branca.
Frio. Gelado. Duro. Sólido.

Vidro? Mármore? Acrílico?

Aquilo não é um quarto. O píer ficou para trás e nas profundezas daquele mar sem densidade os monstros e criaturas escuras agora nadam sem preocupações. Não há mas uma moça de branco para devorar, uma virgem desprotegida e pura para deglutir e digerir.

Os cabelos dourados já não dançam mais na frente de seus olhos. Não flutuam ou fluem com o que restou de seu vestido de criança. Aquela garota morreu, afundou no que achava não ter um fim e se deixou falecer e perecer. Deixou que a água salgada deteriorasse sua pele e descascasse suas feridas.

O sangue não chamou a atenção de ninguém e lágrimas se misturam a chuva como um grito numa multidão em polvorosa. Aquela casca branca quebrou, o tecido frágil do vestido se rompeu em pequenos pedaços que viraram areia e conchas. A água do mar a puxava para baixo e foi quando ela viu o par de pés lá em cima.Balançando como se nada o incomodasse.

Suas suspeitas se confirmaram e ao longe viu na superfície unhas pintadas de vermelho, viu a pele ficando molhada e sentiu os olhos arderem, não culpou o sal do mar. Sabia da origem da dor. A viu e revisitou mais vezes do que lhe foi permitido. Não poderia ficar mais tempo ali, sabia que precisavam seguir outra corrente marítima ou desenvolver guelras.

Viu os pés balançando mais uma vez, e a ardência dos olhos pulou para o peito. Migrou gradativamente conforme seu próximo corpo se deixava afundar e ela finalmente aceitava que aquela bolha de ar que a fazia subir, aquela esperança de submergir e ser recepcionada com um sorriso, morreu.

E então seus lábios se moveram e a água começou a fluir. Respirou fundo e se deixou inundar com o líquido salgado que numa questão de segundos, pode te tirar a vida. Deixou que o mar traiçoeiro lhe lavasse pernas e a recolhesse em seus braços. Deixou-se ninar com os membros abertos e não teve medo.

Deixe que eles venham.

Deixe que me devorem.

Deixe que me mastiguem.

Eu não tenho mais medo.

O vestido rompeu-se com uma investida, os cabelos antes tão majestosos e longos, despediram-se e partiram para a escuridão do oceano. Ela mantém uma mecha como lembrança.

“Um dia eu já fui pura. Um dia eu já acreditei no amor”

Ela não tinha mais vergonha do corpo e usava suas cicatrizes com orgulho. Sentia cada uma das manchas como se fosse uma armadura. As queimaduras e cortes não mais a machucavam. Abriu os olhos, moveu os braços e nadou. Olhou para os lados e finalmente encontrou as criaturas que tanto a amedrontavam, viu seus dentes e aparência. Viu suas barbatanas e tamanho. Viu onde estavam e percebeu que não tinha mais medo.

Ela estava no fundo do mar, no lugar onde ninguém jamais conseguiu chegar. Mergulhou lentamente para dentro de si e sobreviveu ao aumento de pressão, não precisava mais de ar. Despencou do abismo no qual se obrigou a pular e o impacto foi breve, dolorido e quase letal.

Ela não tinha mais medo do escuro.

Abriu os braços e recepcionou as criaturas, se aproximou delas sabendo que não sairia ferida e mesmo que sangrasse, sabia que não iria doer. Ela não tinha mais nada a temer. Abraçou a escuridão de seu ser e viu que era lindo.

Moveu os pés e se locomoveu. Olhou para cima uma última vez e encontrou no meio dos reflexos o par de pés na superfície. Não disse adeus, disse até logo. Pois sabia que um dia ele iria afundar, iria perder o controle ou o equilíbrio e mergulharia naquele mar de cabeça mesmo não sabendo nadar.

E quando isso acontecesse, ela estaria lá. Com dentes à mostra mas não o devoraria, não o mastigaria muito menos o tocaria. Estará lá somente para ver o medo agir, para ver seu eu o matar lentamente e quando o corpo perder todo o ar, o levaria para a superfície que onde ele nunca deveria ter saído.

Conto com você pés vermelhos, não me decepcione.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Replicante




Música: Laughing With

Artista: Regina Spektor

Nota da Autora: Sinto muito pela ausência gigantesca gente. A fonte de inspiração estava mais do que seca.

Nota da Autora 2: Closing Time

-X-

A água passa pelos meus dedos e cabelos, brinca com os fios já judiados de tanto descaso. O corpo não sofre com a gravidade no entanto o peso ainda é presente. Abro os olhos e encontro aquele lugar familiar de antes.

O mar escuro e gelado, habitado por forçar e seres que, se eu parar para pensar, me devorariam viva.

E isso já não aconteceu antes?

A sereia de antes, com as madeixas douradas e de movimento fluído foi uma boa companhia. Um placebo para algo que no fundo eu sabia que não era concreto. Era volúvel, mutável e incerto.

Mais uma homeopatia para uma questão infindável e insolúvel da minha vida.

Balanço os braços lentamente e deixo que a água salgada lave as minhas pernas, invada o meu vestido claro e misture-se com as lágrimas que brota com o mesmo sabor daquele mar que me abraça.

Afundei lentamente e não percebi, não tentei lutar para chegar na superfície de novo. Abro os olhos e não arde, tem uma nova dor dentro de mim, aquela mesma dor que eu havia esquecido com tanto ardor e força.

É como uma onda que te pega de surpresa quando você vira de costas para admirar a vista da areia com as famílias felizes rindo e se divertindo, tentando se livrar da rotina pesada e das cobranças. Aproveitando uma cerveja trincando de gelada e tirando fotos para lembrar que um dia, aquilo tudo aconteceu.

Essa mesma onda te bate nas costas com força e quando você menos percebe, seus pés sumiram do chão e a areia já invadiu seu cabelo e você luta para manter sua roupa de banho no lugar.

Onde eu me encontro, moralismo, vergonha ou indecência não existem. Os monstros que aqui habitam não se preocupam se seus sapatos combinam com a bolsa ou se o seu cabelo esta bonito.

Mas eu gosto de ver. Gosto de ver as famílias brincando na areia, correndo atrás de uma bola de borracha pela orla da praia. Ver amigos de faculdade ficando bêbados e não ligando para o que o resto do mundo vai pensar.

Sinto falta da leveza dos meus pés.

Palanhuik uma vez disse que nós vivemos numa bolha de proteção, disse que sabemos que vamos morrer (que precisamos saber) mas não sabemos quando. Um corte ou um machucado, sangue. Isso te faz ver que não somos seres indestrutíveis e que somos muito mais frágeis do que pensamos.

“Acho que você não sabe, mas eu sou uma pessoa muito triste.”

“Foi a primeira coisa que eu percebi quando te vi.”

Mergulho. Abro os braços. Engulo a água salgada e ela não me faz passar mal. Fecho os olhos numa tentativa de deixar a densidade do mar me erguer daquele fundo escuro e sujo no qual permaneci por tanto tempo.

Sempre o mar.

Sempre uma nova onda.

E quando você pensa que conseguiu o equilíbrio e que tudo vai ficar bem, ela aparece de novo.

Só que dessa vez você não quer levantar.

Eu sei que eles estão ali, os seres. Os monstros, os peixes que habitam o fundo mais obscuro e perigoso do mar. Eu sei que se movimentam vagarosamente esperando que eu dê a carta branca e a deixa para que apareçam e se mostrem para mim. Que abram a boca cheia de dentes e me enganem com uma luz bonita.

Sei que a boneca russa esta se fechando uma camada por vez e o meu esforço para que ela permaneça aberta e expondo seu núcleo não é o suficiente.

Se eu sangrar, eles virão. Se a menor película de pele for exposta, eles irão me atacar e por mais que eu queria isso, preciso relutar.

Preciso abrir os braços, engolir a água e admirar os fios dourados de cabelo que dançam no mar. Vejo aquela sereia cheia de vida e animada nadar para longe de mim e ir se juntar a todas as minhas outras personas numa cúpula de vidro preciosa e linda. Um baú do tesouro que contem o meu bem mais querido.

O meu vestido branco flui por entre minhas pernas e a ao longe eu vejo. Ergo a cabeça e vejo aquela figura que uma vez me ajudou a subir e me deu uma toalha para que eu me secasse e não ficasse doente.

Ele molha os pés e os balança como a criança que seus olhos uma vez me mostraram. Olha pro céu e pro horizonte enquanto eu observo seu semblante. Acende um cigarro e traga. Exala a fumaça para cima e permanece com a cabeça naquela posição.

“Toma cuidado”

Por mais que eu queria continuar olhando meus braços doem do esforço que fiz para chegar mais perto, meus músculos queimam com o exercício. Eu cheguei mais perto, nadei por uma corrente já conhecida e que, durante um tempo, fiz questão de esquecer.

Quero erguer a cabeça do mar e deixar o vento frio da maresia machucar o meu rosto mas eu sei que, se o fizer, ele olhará para mim. Vai parar de balançar os pés e me dará um sorriso. Fará algum comentário sobre a situação que tirará um riso dos meus lábios.

Mas eu não sinto vontade de sorrir.

Eles estão lá embaixo me vendo. Esperando. Me confundirão com uma foca ou mergulhador e da mesma maneira que consegui subir, me puxarão de volta para baixo e o vestido branco e inocente, se tingirá de vermelho.

Então eu fico aqui, parada com o mar brincando com meus fios de cabelo dourados invadindo as minhas pernas. Fico aqui na vigia de movimento e rezando para que eu não veja nada se mexendo ao meu redor, só aquele par de pés na superfície.

Algum dia, verei unhas pintadas de alguma cor provocando acompanhando o ritmo daquele ser e quando isso acontecer, procurarei uma outra corrente para seguir curso. Criarei um novo monte de guelras ou migrarei para uma floresta. Eu tive aquela criança.

A tive e ela fugiu de mim.

“Todos esses momentos serão perdidos, como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”

domingo, 17 de junho de 2012

Gentileza



Música: Rolling Hills

Artista: David Michael Bennett

Nota da Autora : Gente, vou ser sincera. Minha inspiração estava em perigo de extinção, mas consegui dar um power up graças a uma banda nova incrível. (Procurem no youtube Steam Powered Giraffe, vocês não vão se arrepender)

-X-


- Sabe, você pode ser quem você quiser. –ele disse com um dos olhos fechados por causa do sol alaranjado. – Se as pessoas que estão com você realmente gostam de você, elas não vão se importar.
Ela moveu os pés desconfortavelmente e olhou para o mesmo sol que tomava posse do céu naquela tarde de verão. Segurou firme o copo de café, agora frio, e sorriu.

- Acho que você tem razão. Mas e se essas mesmas pessoas desaprovarem essa mudança? – ele ficou em silêncio por alguns breve segundos. Respirou fundo e olhou para uma família na areia. Ela sentiu o pesar por trás daquela resposta.

- Então você não precisa delas. E isso pode doer. Mas se você for forte o suficiente para continuar firme com a sua decisão e seguir em frente, você vai descobrir que existem pessoas incríveis ai fora que te amam pelo que você é e não pelo que você aparenta. – ele sorriu e ela sentiu os olhos arderem. O nó na garganta surgiu e então ela prendeu a respiração.

- Você tem razão. Foi bobagem minha pensar que eu ia ficar sozinha.

- Nós morremos sozinhos, por mais que a gente tente não aceitar esse fato. Mas isso não significa que não podemos passar a nossa vida aqui sem a companhia de pessoas que nos fazem bem.

- O mundo precisa de mais pessoas como você. – ele riu e passou a mão nos cabelos escuros. Tomou mais um gole de seu copo e mais uma vez respirou fundo. Nós conhecemos as melhores pessoas, das maneiras mais inusitadas.

“Ela odiava sol e a ideia de que temos que ser felizes e saudáveis no verão. Odiava o vento quente e o calor. A sensação de estar constantemente numa sauna gigante chamada de mundo e se bronzear.
Não tinha entendido o que a havia feito sair de casa naquela tarde.

Sentou-se em uma das mesas com guarda sol e começou a desenhar, passou horas e mais horas com o lápis em mãos e a mente funcionando a todo vapor. Eventualmente se espreguiçava e movimentava o tronco. Depois de um tempo você começa a ignorar a dor nas costas.

- Ah droga. É, acho melhor voltar mais tarde. – ouviu perto de si e virou-se procurando a origem do som. Era um homem que mais parecia um garoto. Tinha um livro em mãos e procurava proteger-se do sol cobrindo o corpo todo com roupas. Ela ergueu as sobrancelhas em surpresa.

Alguém como ela?

Sem pensar duas vezes correu em direção a figura alta e magra que carregava um livro, não entendeu o motivo pelo qual teve uma atitude tão impulsiva. Suas habilidades sociais eram quase nulas e a ideia de ir à uma festa sem conhecer ninguém era apavorante. Mas mesmo assim ela apertou o passo e conseguiu alcançar aquele garoto.

- Oi, desculpa. Eu te ouvi dizendo que não tem mais mesas livres, pode sentar na minha. Eu divido com você. – foi só quando chegou perto dele é que pode perceber o quão alta aquela pessoa era. Ele a olhou com surpresa e um sorriso tímido apareceu.

- Não tem problema mesmo? Não vou demorar, só quero ler um pouco. – ergueu o livro na altura dos ombros.

- Claro que não. Pode sentar sim, demore o tempo que quiser. – caminharam juntos e em silêncio até a mesa, pessoas passeavam de roupas curtas, chinelos e com óculos de sol. Homens se exibiam sem camisa e mulheres se esforçavam para ter a pele tão marrom quanto um tronco de carvalho. A música era alta e o gênero era desagradável para os dois.

Sentaram-se, ela tomou o lápis em mãos novamente e ele abriu seu livro. Foi uma questão de minutos até que voltassem a interagir. “

- Posso dizer uma coisa? – ele sacudia o copo de plástico nas mãos brincando com o restante de líquido contido no mesmo.

- Claro, vá em frente.

- Eu gostei muito de te conhecer. – ele parou o movimento e mirou-a nos olhos. Ficou sem saber o que dizer ou procurava desesperadamente as palavras em sua cabeça para formular a resposta mais adequada ou correta. Não sabia como lidar com elogios, muito menos com uma frase tão intensa quanto “Eu gostei muito de te conhecer”. Intimidade não era o seu forte.

Garotas muito menos.

O por do sol iluminava o cenário e um vento refrescante veio aliviar a sensação de fervor do ambiente. Ela soltou os cabelos e balançou os pés como uma criança. Percebeu que cruzara um limite importante, tentara derrubar uma barreira e dar mais um passo naquilo que estava em processo de construção entre os dois e, aparentemente, não dera certo.

- Puxa... Obrigado. Não sei como te responder.

- Pode dizer que gostou de me conhecer também, mesmo que seja mentira. Tudo bem. – e foi então que ele percebeu. Ela era como ele naquele aspecto. Ela conhecia o que era a rejeição por autenticidade, o que era não ser convidada para as festas mais legais ou não poder andar com o pessoal mais popular da escola. Ela era uma forasteira naquele mundo de corpos esculturais e beleza hollywoodiana.

E mesmo os forasteiros, precisam de alguém as vezes.

Ele se levantou e sentou-se ao lado dela. A abraçou lateralmente e deixou que o nó desatasse. Ela amassou o copo de papel que tinha em mãos e agarrou a camiseta escura dele enterrando seu rosto pequeno no ombro largo daquela figura masculina. Ele sentiu o tecido umedecer e a apertou para mais junto de si. Pousou o queixo em sua cabeça e olhou o por do sol acenando seu adeus.

Plantou um beijo nos cabelos daquela menina que tanto lutava por companhia genuína por que sabia que, pessoas como eles sentem a solidão de uma maneira diferente. Acariciou o ombro da menina enquanto ela soluçava alto e o apertava a cintura agarrando firme na camiseta. Via aquele pedaço de pano, aquele homem que mais parecia um garoto, como uma tábua de salvação. Uma luz  no fim de um túnel estreito e  sujo, uma cama quente depois de um dia estressante de trabalho ou um assento vazio numa mesa com guarda sol num dia abafado de verão.

Abaixou a cabeça e sussurrou no ouvido daquela pequena batalhadora palavras que só a fizeram lhe apertar mais a cintura e o fazer soltar um riso afetuoso.

“Você é uma garota incrível. E não é mentira quando eu digo que conhecer você foi a melhor coisa que aconteceu comigo hoje. Não deixe ninguém dizer que você não é incrível. E se alguém te disser isso, me dê um nome e um rosto que eu acabo com a cara dele.”

Realmente, nós conhecemos as melhores pessoas, das maneiras mais inusitadas.

domingo, 13 de maio de 2012

Fala Bia!



Olá meus queridos!

Hoje finalmente conseguirei responder as perguntas do mais novo "Fala Bia!"

Desculpem a demora em responder. Mas de bônus já aviso que tenho uma nova ideia de história na cabeça e espero que em breve a postarei aqui. Mas vamos as respostas!

Quando você começou a fumar e por quê?

Hahahahah todo mundo me pergunta isso. Bom, eu sempre tive vontade pra falar a verdade, acho que isso vem do fato de que minha mãe fumou durante a gravidez, mas faltava aquele empurrão final sabe? Então fiz uma amiga na faculdade que era fumante, ai a coisa toda progrediu, pedi um trago, peguei gosto pela coisa e cá estou agora me intoxicando.

O cara do texto Vazio é real ou fictício?

Um pouco dos dois ;D

Quem é a pessoa que mais te inspira a fazer os textos daqui?

Bom, Trilogia do Nada é um blog cronológico. Ele mistura ficção com parte da minha vida, isso inclui pessoas, elas podem saber que eu existo ou não, podem se envolver comigo de alguma maneira ou não, podem ter participação direta ou indireta aqui. Conforme elas vão saindo e entrando na minha vida, pode ter certeza de que, pelo menos uma vez, elas passarão por aqui.

Acho que não tenho uma pessoa que mais me inspira a escrever os posts daqui, acho que depende do tempo de permanência de cada uma delas. Mas num palpite impulsivo e sem muita reflexão, eu diria que o Bentinho, foi a que mais me fez escrever. Vejamos se alguma embarcação consegue mudar essa marca.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Feitiço



Música: Aqui neste lugar

Banda: Sérgio Britto e Negra Li

Nota da Autora: Inspiração, inspiração, inspiração. Mas ainda não consigo lidar com gente incompetente.

Nota da Autora 2: Essa precisa ouvir no repeat

-X-


- Já sentiu uma alegria explodindo no seu peito, uma vontade muito idiota de ficar sorrindo sem motivo aparente? É estranho. Você tem vontade de sair gritando feito um desvairado, correr até ter câimbra nas duas pernas, agitar os braços e expressar essa alegria insana. Já sentiu isso alguma vez?

Ela mirava o teto do quarto, falava com um sorriso nos lábios e um brilho reluzente no olhar. Gesticulava energicamente e seu tom de voz subia conforme descrevia aquele sentimento intenso.

Ele virou a cabeça em sua direção e deu mais um trago em seu cigarro, sem filtro, e o mesmo sorriso esboçou-se em seus lábios.

- Já. Quando eu vou em shows geralmente isso acontece.

- E fora deles? Já sentiu isso fora de casas lotadas de gente? Sozinho, no meio da rua ou em uma situação diferente?
Ele fez uma careta pensativa e coçou a barba escura com a mão vaga. Encontrava-se recostado na cama, as pernas relaxadas e parcialmente cobertas por um lençol branco.

- Nunca parei pra pensar nisso. E você?

Ela se sentou na cama virando o corpo pálido e magro em sua direção, o desenho colorido de um pássaro imperial e majestoso era o único contraste de cor naquela imensidão quente e muscular de pele clara. Ajeitou desleixadamente os cabelos para longe do rosto.

- Já. Mas eu não sei o motivo disso.

- Vai ver essa felicidade genuína não precisa de explicação, vai ver é uma coisa que a gente sente de repente. É triste se você parar pra pensar porque, levando em conta o mundo como ele é hoje, e as pessoas que vivem nele hoje, sentir essa felicidade genuína é uma coisa rara. Considere-se privilegiada.

Ela virou o rosto para o lado e ele pode admirar seu perfil por uns breves segundos, o nariz pequeno e arrebitado, o queixo redondo e os lábios finos mas potentes. Lábios esses que ele havia almejado por muito tempo.

Ainda parecia surreal demais pra ser verdade.

- É, isso realmente é muito triste. A vida era realmente mais fácil antigamente pras pessoas eu acho. Não tínhamos tantas preocupações e eu acho que essa felicidade genuína era muito mais acessível.

- Relaxa, ainda criam um aplicativo pra isso.

Ela riu e ele apagou o cigarro. Reclinou-se em direção a garota de mãos curiosas, mãos essas dotadas de uma habilidade incrível. Ela sabia o poder das palavras mas principalmente, sabia como usá-las a seu favor.

E foi assim que ela o trouxe para perto.

Ela então o viu de perto. Depois de tantas imagens digitalizadas, depois de tantas letras enfileiradas na ordem certa, depois da distância e da surpresa. Ela então o viu de perto.

Ele estava ali.

Era real.

Ele existia.

Não era um holograma.

Ou um programa de computador.

Era carne, músculo, sangue, suor, ossos, pelos, cabelos, unhas, dentes, coração.

Ele era de verdade.

Era um homem.

E ela sabia que um dia, ele iria embora.

Passou os dedos brancos e calejados em seus cabelos encaracolados e rebeldes, deixou-os afundar naquela imensidão escura e sentiu a textura suave dos fios. Não ligou para o suor que residia no couro cabeludo, ela mesma estava suada, não era relevante para o momento.

Brincou com o lóbulo da orelha dele soltando um risinho de malícia ao se lembrar do que fizera minutos antes, desenhou o contorno na mandíbula com o dedo indicador descendo pelo centro do pescoço e acariciando suavemente as clavículas.

Ele mirava o que acontecia na hora. Seus olhos tinham um calor tenro e até paternal, “Quero o melhor para você” e, inconscientemente, um riso genuíno aparecia em seus lábios de modo discreto.

- Por que você gosta tanto de me tocar?

- Porque eu ainda não acredito que você existe e que você esta aqui comigo.

Seu olhar encontrou com o dela e então os dois polos de cor se chocaram, o marrom da terra com o azul do mar. Dois extremos que colidem numa proximidade afetiva, pura e dependendo da situação, carnal.

- É difícil acreditar mesmo.

- 5 anos já. 5 anos que a gente sabe da existência um do outro, e ainda assim, cada um foi pro seu lado.

- As coisas funcionam de um jeito estranho, não é como os religiosos dizem “Deus escreve certo por linhas tortas?”

- Deus é disléxico então?

- Não, acho que só torto mesmo.

Riram. Juntaram as testas e fecharam os olhos, ela deixou que as mãos dele passeassem por suas costas magras, embolando-se em seus cabelos, “Cabelos de sereia” como ele mesmo diria, eventualmente e parando em seu queixo.

- A gente não vai se apaixonar né?

- Não sei. Você vai?

- Preciso saber se você vai ou não, pra não me machucar depois. Você vai?

- Não sei. Você acha que vai?

- Posso não me apaixonar, mas você já sabe onde fica o mapa que guarda o tesouro.

Ele segurou seu dedo anelar esquerdo, o dedo mais importante, e beijou a cicatriz em formato de “X” como que abençoando um tesouro de navio pirata. Ela riu. Não iriam se apaixonar, não naquele momento.

- Posso vender essa informação por muito dinheiro, você sabe disso?

- Você sabe mexer com dinheiro e sabe as palavras difíceis de economia, não é justo.

- Ficarei rico as suas custas!

Riram novamente. Ela lhe mandou uma careta e um leve soco no braço. Viu o polvo e a âncora, viu o leme e a embarcação, as cordas e gaivotas. Talvez ele fosse um corsário atrás de sua fortuna, talvez fosse somente um navio mercante atrás do porto certo, viajando pelos sete mares e, eventualmente, topando com sereias em seu caminho.

Ele a derrubou na cama deitando parcialmente em cima de seu torso, tateou suas costelas até sentir as guelras, acariciou as escamas e contornou a coruja que morava em sua perna. Uma incongruência. E não era assim todo o ser humano? Uma incongruência de personalidades? Uma desarmonia de vontades e não coesão de sonhos?

Viu as penas, o bico, a rosa e os olhos ferozes. Uma coruja selvagem pertencente a uma sereia. Dizem que a alma da gente nada tem a ver com o corpo e isso ele agora via como sendo uma verdade.

Seria essa coruja domável? Ficaria ela por vontade própria e levantaria voo quando entediada? Cortaria ele os dedos em seu bico ou nos espinhos? Suas penas eram mesmo tão macias quanto aparentavam?

Encarou o desenho por segundos filosofando a respeito daquela sereia de concreto vivendo num mar de edifícios recheado de enguias subterrâneas e tubarões em firmas de advocacia. Um mar onde os piratas não içam velas e as barracudas nadam sempre no mesmo sentido quando o relógio bate seis horas.

- Você também tem uma coruja na perna, não precisa olhar tanto pra minha.

- A sua é diferente. Ela morde.

- Só morde se eu quiser que ela morda.

- E você quer que ela me morda?

- Não, quem vai te morder sou eu. De novo.

Ele riu conforme ela o puxava para perto, deitaram num beijo risonho e infantil. Puro e carinhoso, intenso, mas só quando adequado.

Cordialmente, o pássaro majestoso permitiu que ele o tocasse, atravessando os dedos por suas penas coloridas sem nunca derrubar a coroa que usava. Permitiu que as unhas arranhassem uma declaração de amor sem arruinar o sentimento e sentiu a partida das mãos conforme elas subiam para a coluna.

Ela enrolou os dedos nos cabelos negros novamente, fez cachos e mais cachos conforme seu corpo afundava numa âncora guardada por um polvo de três pernas. Deixou o ar das velas do navio secar seus cabelos molhados de água salgada e não sentiu o desespero de respirar.

O lençol branco se perdera na espuma do mar e o colchão dera espaço para o casco do navio que balançava segundo o ritmo das ondas. A lâmpada virara o sol, mas sem os efeitos ultravioleta, e a música soava como gaivotas pairando pela imensidão do céu de brigadeiro.

- Eu já entendi porque você me enfeitiçou.

- Ah é? E qual foi o meu segredo?

- Você cantou pra mim.

“Sua... Sua... Sua sereia de Homero!”

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pequenas mãos curiosas



Música: Seja até o fim


Banda: MOPTOP


Nota da Autora: GALERINHA! Mandem suas perguntinhas!


Nota da Autora 2: Uma coisa levou a outra, me empolguei e saiu esse post por acidente.


- x-


"- Não diga isso justo quando eu começo a sentir a embriaguez da bebida ou eu posso realmente acreditar hein?!"


É melhor você acreditar em mim quando eu te contar mais sobre as minhas coxas grossas, macias e brancas, minha pele de porcelana confortável e suave, meus lábios travessos porém cheios e minhas mãos muito, muito curiosas que podem tocar em tudo o que alcançarem. Inclusive em pessoas.


E você não vai acreditar no que essas pequeninas podem fazer! Tocar, pegar, arranhar, acariciar, cutucar, agarrar, beliscar e provocar!


Elas podem descer por todo o caminho da sua barriga e parar justo quando a diversão ia começar. Podem aprender a desafivelar seu cinto mas esquecerem quando estiverem a ponto de tirá-lo de suas calças.


Elas seguram cabelos enrolados com todo o vigor e gentilmente os acariciam conforme alcançam as orelhas, a linha da mandíbula ou até mesmo o pescoço. Elas gostam de coçar barbas e peitos, gostam de agarrar ombros e nádegas.


Mas o que elas realmente gostam, é de serem beijadas.


Delicadamente.


Maciamente.


Gentilmente.


Elas amam isso.


Elas até podem lhe dar permissão de guiá-las para onde quer que você deseje!


Mas a principal e mais importante coisa que você não pode esquecer, se suas verdadeiras intenções são as de manter as pequenas mãos curiosas perto de você é, seja gentil com a dona delas. Seja carinhoso com a fonte e as pequenas mãos curiosas estarão sempre ao seu alcance.


Explorando por debaixo da sua roupa, se infiltrando nos seus cabelos, no meio das suas pernas, carregando outras mãos consigo em direção a fonte, arranhando suas costas, acariciando seus lábios, puxando seu rosto para perto ou até permitindo que elas se enrolem nas suas pequenas mãos curiosas.


Como num aperto.


Macio.


Gentil.


Delicado.


Infantil.


Simples e puro.


Como deveria ser.